A lenda do demônio do espelho

O que mais existe no mundo do terror são relatos que envolvem espelhos.

Cresci ouvindo meu avô falar que nunca deveríamos levar velas para frente do espelho. Bastava cair a energia em casa que ele logo cobria os espelhos para que nós não corrêssemos o risco de acabar com uma vela na frente de um deles.

Sempre fui muito medroso. Enquanto criança, nunca tive coragem de perguntar o motivo dele ser tão receoso em relação a velas em frente aos espelhos. Só aceitava que ele tinha suas razões e tentava não me preocupar com suas motivações. Além de tudo, ele sempre foi muito reservado, o que me fazia ter certo medo dele.

Mas fui crescendo e isso ficou na minha cabeça. A curiosidade começou a apertar, até que não aguentei e fui perguntar:

“Vô, preciso te perguntar: por que você diz que não podemos segurar velas em frente ao espelho?”

Ele me olhou assustado. Acho que ele não esperava que eu fosse um dia lhe perguntar o motivo. Seus olhos ficaram vermelhos, como se estivesse querendo chorar. Mas após alguns segundos calado me encarando, ele começou a falar:

“O que vou te contar, você tem que me prometer que não irá espalhar. É algo muito sério, mas acredito que você precise saber, pois estou ficando velho e preciso que alguém saiba o que realmente aconteceu com a minha irmã.”

Naquele momento já fiquei meio tenso. Nem ao menos sabia que meu avô tinha uma irmã.

“Eu, sua tia-avó, seu bisavô e sua bisavó morávamos em um sítio em Itapetininga. Não havia luz elétrica no nosso sítio naquela época. Usávamos lamparinas e velas para iluminar a casa durante a noite.”

“Certa vez, num dia muito chuvoso e com muitos trovões, sua tia-avó, que na época tinha aproximadamente 8 anos, pegou uma vela e foi ao banheiro. Deixou a vela em cima do armarinho onde ficavam as escovas de dentes bem em frente ao espelho e começou a escovar os dentes para dormir. Após terminar de escovar os dentes ela deu um grito. Todos fomos correndo ver o que tinha acontecido.”

“Ao chegarmos na porta do banheiro, nos deparamos com a sua tia-avó sentada chorando do lado de fora. Perguntamos o que tinha acontecido. Ela disse que ao ficar olhando para seus dentes no espelho, viu seu reflexo a encarar sorrindo, mesmo quando ela já havia fechado a boca.”

“Meus pais ficaram assustados. Eu, por outro lado, comecei a rir muito da minha irmã. Falei que ela estava vendo coisas por estar com medo das histórias de terror que eu contava para ela. Meus pais brigaram comigo e levaram minha irmã para dormir com eles no quarto.”

“Aquela noite dormi sozinho. Por mais que não estivesse acreditando no que ela acabara de contar, a gente acaba sentindo um medo. Afinal de contas, não deve ser uma sensação nada agradável ver seu reflexo no espelho te encarando e sorrindo como se fosse uma foto.”

“Acordei no dia seguinte e tudo correu bem. Minha irmã já estava normal novamente e disse que poderia ter sido algo da imaginação dela mesmo. Então tudo ficou bem… até o anoitecer.”

“Mais uma vez, o céu parecia que ia desabar. Uma forte chuva, com raios e trovões tomaram conta novamente do nosso sítio. Só que desta vez meus pais não estavam em casa, pois haviam saído para visitar meus avós, que estavam doentes. Como era o mais velho, fiquei responsável por cuidar de casa e da minha irmã.”

“Quando já era bem tarde, ela se dirigiu ao banheiro com uma vela para escovar os dentes, exatamente como havia feito na noite anterior. Passados alguns minutos ela grita de uma maneira bem mais alta do que da última vez. Corro para ver o que aconteceu. Só podia ter visto coisas de novo.”

“Desta vez ela não estava fora do banheiro. Chamei por ela, bati na porta do banheiro, que estava trancada por dentro, e nada dela responder. Só podia ter acontecido algo. Então decidi bater com força na porta para estourar o trinco que a mantinha fechada. Ao abrir a porta, não havia ninguém lá dentro. Não tinha como minha irmã ter saído de lá, pela janela não passaria nem um bebê recém-nascido.”

“Quando olhei para o armarinho do banheiro, vi a porta de espelho aberta, e assim que a fechei, um relâmpago clareou o banheiro todo, e no espelho iluminado vi um reflexo diferente do meu. Vi minha irmã com um aspecto sombrio e desesperado. Quase morro de susto naquele momento. Por um instante parecia que ela estava atrás de mim, mas ao virar, nada vi além da parede do banheiro.”

“Me virei novamente e me deparei com meu reflexo no espelho segurando a vela que iluminava aquela noite tenebrosa. Fiquei me encarando por alguns segundos tentando imaginar para onde minha irmã havia ido. Até que percebi meu rosto mudando de aspecto. Aos poucos fui percebendo minha boca se movimentar até formar um sorriso maléfico. E atrás de mim vi minha irmã toda desfigurada. Saí correndo do banheiro e fui para a sala. Estava completamente assustado com o que tinha acabado de ver. Até que meus pais chegaram de repente e eu dei um grito.”

“Eles me perguntaram o que aconteceu. Chorando, contei toda a história. Meu pai, mais que depressa pegou sua arma para percorrer o sítio tentando encontrar minha irmã. Aparentemente, ele não havia acreditado no que contei. Minha mãe já era mais crédula e se lembrou de uma lenda que sua mãe lhe contara.”

“Foi então que ela correu para o banheiro com uma vela e ficou olhando fixamente para o espelho. Após alguns segundos ela começa a ver seu rosto também mudando de aspecto, e atrás dela o corpo da minha irmã, já sem vida. Após ver minha irmã ela apaga a vela e começa a chorar.”

“Quando meu pai voltou e minha mãe se acalmou ela contou a ele o que tinha visto. Após contar, nos falou sobre uma lenda na qual meu pai nunca acreditara.”

“Ela disse que existe um espírito demoníaco que percorre todos os espelhos. É um demônio muito faminto, que fica aguardando incansavelmente que alguém descuidado apareça na frente de um espelho com uma vela. Aparentemente a vela é o que guia este demônio até o espelho da pessoa. Se você ficar encarando seu reflexo no espelho, isso abre um portal para que ele possa te levar junto com ele. E, ao ser puxado para dentro do espelho, ele se alimenta da sua carne e aprisiona sua alma para sempre.”

Meu avô faleceu pouco tempo depois de me contar esta história.

Ele dizia que eu não deveria contar para ninguém por medo de que as pessoas tentassem invocar este demônio propositalmente. Mas decidi compartilhar este relato para evitar que as pessoas façam isso sem querer. Sempre tomem muito cuidado com espelhos!!!

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